E agora paro e penso em todos aqueles lugares que ainda quero ver, e em todos os corações que ainda vou chegar. Então como me estagnar nesse teu tempo vagaroso?
Você agora - minuto a minuto, pois minha vida não tem tempo a perder - vai se tornando parte da minha coleção de diminutas lembranças amorosas.
Nas prateleiras da minha alma encontram-se esses pequenos bibelôs: criações delicadas do meu coração e de minhas intensas fantasias. De um lado, esses enfeites realizados, os pequenos troféus de uma vida em ato, do outro, as lembranças desses sonhos idealizados, as mimosas imagens do que poderia ter sido. Te colocarei gentilmente ai, nesse último.
De tempos em tempos te visitarei e te contemplarei. E um sorriso se estampará em meu rosto. Não é de você que estarei sorrindo, mas sim é desse meu coração bobo que inventa travessuras. Cria divertidos jogos em desertos arenosos. Faço dessa areia, uma momentânea cachoeira. Mergulho, me iludo! Te faço enchente fazendo transbordar meu espírito em coloridas emoções. Me divirto, te transformo naquilo que me compraz. Te dou à luz, fazendo nascer em ti existências impensadas...
Você!
Deserto de areia.
Contigo vivi centenas de emocionantes contos sem que você jamais desconfiasse. Você não pode desconfiar...
Você!
Horizonte de secura. Tempo que nunca passa. Marasmo que entendia…
Um deserto de areia.
Agora és uma pequena lembrança do que jamais pode ser: Amor em correnteza!
É do que tu não és, que te guardarei em minhas lembranças.
Meu coração e meu estômago são muito próximos, e funcionam parecido: precisam ser alimentados 3 vezes ao dia! No minimo uma vez ao dia, aceitando quando se vive momentos dificeis…
Por que meu coração haveria de ser diferente do meu estômago? Não ocupam o mesmo corpo e o mesmo desejo de minha alma?
Há quem se engane a respeito de minhas necessidades… Ah coitados!
Acreditam que eu espero!
Se tem uma coisa que não tenho na minha vida é paciência, e foi justamente essa caracteristica que me faz hoje eu viva! Quem não busca seu alimento morre na inanição! Já passei fome e disso não passo mais, aprendi! Se não tenho aqui, busco acolá! É assim que se vive quando se respeita as necessidades de seu corpo e alma. E podemos viver fora de nosso corpo e alma? Não espero para ver, e também não faço questão de querer.
Não tenho paciência, e não aceito migalhas. Onde não há fartura, meu corpo e alma não permanecem!
Logo encontro outras mesas e camas…
Mas hoje há um mal que acomete nossa sociedade, a busca de uma aparência que não condiz com as necessidades corpóreas e afetivas… Não se come para tentar ser magro, não se sente para aparentar controle… Vivemos a era da Anorexia! Ela, em todas as suas possibilidades! Se privam de um doce, se privam de fazer uma ligação, e quando o outro faz, já é demais! Tudo é demais para os anoréxicos.
Porém só quem já viveu diariamente mergulhado no delicioso mel do amor, para saber que não se vive com raspas amorosas uma vez por semana… Eu quero a abundância percorrendo meu corpo, quero a enchente de afetos afogando minha alma de amor! Mas os anoréxicos afetivos se assustam com esse afogar! Coitados são tão frágeis, que acham que vão morrer. E quando lhes é oferecido a fartura do amor, logo acusam: “você está me sufocando!” Entram em estado de pânico diante da maré amorosa! Mal sabem eles que aprendemos a nadar nesse profundo oceano de sentimentos. Mas tudo é demais para eles. Vivem com o mínimo e acham que o Outro precisa se satisfazer da mesma maneira..
E como encontrar abundância na anorexia? O que sobra é deixá-los em paz em sua anemia sentimental…. aquela paz que se aproxima quase do estado de morte…
Vão queridos! Vivam em paz em seu pequeno ataúde de individualidade!
Já eu? Eu quero o borbulho, a intensidade, o estrago, o excesso! Quero me lambuzar inteira em todas as delicias que a vida me oferece! Quero o amor invasivo e passional. Quero o amor que me satisfaz, que me alimenta, que sente prazer em estar juntos… o amor em que faz esquecer o Eu e o Tu, para se viver o Nós… um mergulhado no outro!
Sou feita de vísceras, pele e afetos. Amor que não dá conta disso que procure os santos nos templos, esses, feitos de imaterialidade e sopros divinos…
Aqui pelo contrário, tem carne, pulsão, sangue e desejo… e isso definitivamente não é para qualquer um!
Mas eles acreditam que eu espero… coitados!
Aqui estou percorrendo novos e mais novos territórios afetivos. Me alimentando de novos sabores e desejos. Meu estomago e meu coração nunca param! Não ousam esperar. Meu corpo e alma insaciáveis.... nômades!
Pois
é, me peguei pensando nela nesse exato momento! Diferente de muitas pessoas eu
acho ela bem convidativa em várias ocasiões. Às vezes não é arma na boca, mas a
deliciosa sensação de uma faca na jugular. Já a faca serve mais para os
momentos em que sinto a necessidade de uma punição ou de algum tipo de
intensidade. Eu realmente sinto um grande prazer ao imaginar a lâmina rompendo
a carne, e fazendo jorrar o sangue antes preso no corpo, tal como feijão querendo
sair de panela de pressão. A arma na boca já tem para mim um sentido mais
imediato, um fim iminente, simplesmente alívio através de um delicioso "Puf!"
Há
quem vá dizer: “Meu Deus você tem problemas!”
Nessas
horas respiro desdenhosamente por ver a negação que as pessoas fazem de si
mesmas. A angustia está dada, para todo e qualquer ser humano. A diferença
entre eu e a grande maioria é que eu não encontro alívio naquilo que a nossa
cultura aceita para mansidão das angustias, essas nossas presentes companheiras. De fato, eu sou um desadaptado. Não
encontro alívio em religiões, ou na formação de um núcleo família sanguíneo,
nas festas, bebedeiras, no ócio televisivo, nos encontros banais entre amigos,
nas conversas mal afiadas de trabalho etc. Eu passo por tudo isso, mas sou sempre
um estrangeiro, olhando de fora tantas encenações e fugas.
Eu
não tenho problemas! Vocês que encontraram soluções para aquilo que vocês
pensam ser um problema. Eu ando abraçado com a minha angustia. É ela que me dá
um beijo todas as manhãs, e me faz carinhos na cabeça antes de dormir. Durante
o dia às vezes ela me surpreende pegando em minha mão, ou sussurrando coisas em
meu ouvido. Outras vezes durante a madrugada ela me acorda para conversar, e lá
ficamos - ela e eu - em um diálogo intenso na madrugada. Graças a ela é que
pude muitas vezes olhar a lua, as estrelas, ou ver o nascer do sol. Poxa! Como
posso negar uma companheira tão fiel?
Eu
gosto da Angustia, pois ela é a única amiga que me tira do lugar comum. Ela faz
de mim um filósofo: com ela eu penso, reflito, medito. Na grande maioria das
vezes não encontro respostas é verdade! Mas ela mexe com minha alma. Tira-me do
palco do senso comum, me arranca as máscaras que até eu acreditava já ser eu. Sim,
ela me bagunça! Coloca interrogações onde antes eram certezas. E sim, com ela às
vezes vou passear a beira do precipício, ali onde se inicia o fim: a arma na
boca! Mas é quando eu faço esses
passeios macabros com minha amiga, que o retorno à rotina toma outro sentido. Lá
a beira do precipício ela silencia, normalmente fica lá - sentada à beira - embalando
suas pernas agitadas olhando para o horizonte obscuro. Silêncio que me diz:
“agora pode voltar!” Eu volto, sozinho, sereno. E então todas aquelas festas,
as bebedeiras, o ócio televisivo, os encontros banais entre amigos e as
conversas mal afiadas de trabalho já não são solução para o “problema” angustia
como a maioria das pessoas faz uso. Para mim, já são a própria existência. Medíocre
existência é verdade, mas existência que pode ser reinventada e recriada. Não é
a encenação dura e rígida de quem foge de algo, se apegando com unhas e dentes as mediocridades da pretensa estabilidade. Continuo estrangeiro, mas o
estrangeiro que traz consigo a novidade e a diferença para a criação. Afinal não há mais nada temer para quem já esteve diante da obscura boca do abismo: A imagem da língua em fogo atravessando os delicados miolos pintando com cores quentes o que já não tem mais vida.
A angustia quando nos leva ao limite nos ensina
humildade e uma capacidade criativa para nosso dia a dia. Nem todas as amizades
nos elogiam ou nos distraem com supérfluas alegrias, às vezes é nas amizades mais
duras que encontramos outras verdades. É preciso abraçar e ouvir a própria
angustia, e mesmo nos levando à beira do precipício é lá onde ela nos ensina a leveza da vida!
domingo, 24 de agosto de 2014
Confutatis maledictis
Flammis acribus addictis
Voca me cum benedictis
Oro supplex et acclinis
Cor contritum quasi cinis, gere curam mei finis
Parabéns! Hoje a
criança faz 10 aninhos!
Primeiros anos de vida
uma gracinha, muito amada, cheia de mimos e pequenas festinhas. Sempre o olhar
e o abraço carinhoso a lhe cuidar e ninar. A promessa de um Infinito lhe cobria
a alma.
Os dias passaram, a
rotina acinzenta a vida, os abraços são lânguidos e o olhar distanciado. A
criança já não é o centro. E quanto mais o tempo passava uma certa indiferença
cresceu, um certo descuidado, mas ainda assim uma presença extenuada, mas
presença.
Já pelos seus 5 anos a
coisa realmente era diferente. A criança chorava, exigia, mas nada podia ser
feito por ela. Não havia mais espaço para ela. O Infinito era um engano. Um
desejo limitado cheio de fronteiras. Pequeno. Depois dos 5 anos foi
praticamente abandonada... Viu-se só! Ainda assim continuou tendo fé. O tempo
estava ao seu lado. Agarrou-se aqui e ali...comia sobre o coração
temporariamente quente de algum moribundo, para logo deparar-se com uma carne
dura e fria. Era a morte, essa sempre presente na vida da criança desde então.
E assim, no fim acabava novamente só.
Rolou pelas ruas da
cidade, da vida... voltava a espiar seu passado que estava ali...Porém só
encontrou securas e egoísmos cultivados numa birrenta mágoa. Eram estátuas,
nada a declarar, nada a sentir, nada! Desistiu, seguiu!
Um dia abaixo dos
delírios de sua fome - quando espiou mais uma vez o seu passado - acreditou ver
um movimento...Será verdade? Sussurrou e acreditou ouvir um eco... seu coração
bateu forte... passou um tempo nesse encantamento, sempre emitindo sinais e
ouvindo retornos. Todo seu corpo virou esperança. Ela encontrou novamente a
vida e aquele bom espaço que a acolhesse! Travou diálogos com seu passado sempre
tendo retornos! Era muita alegria!
Porém um dia estranhou,
se deu conta que a coisa não avançava. Mas apenas repetia. O que havia de
errado? Começou a olhar melhor, andou, olhou mais um pouco, andou para o outro
lado e olhou. E então derrepente sentiu seu peito comprimir, uma dor
avassaladora lhe rompeu a alma. Viu um espelho! Não havia nada lá, apenas o
reflexo dela mesma e de sua fé. Todo esse tempo sussurrou e travou diálogos em
sua própria alma. Nada mais!
Viu-se novamente só...
seguiu...Com o tempo, através de sua alma lúdica - aprendeu a se divertir e ter
fé com o espelho. Eram voos sabidamente fadados a penúria. Mas fingia acreditar
para continuar seguindo...
Seguiu, brincou,
cansou...
Já não sabe mais o que
é amor. Dúvida se algum dia soube. Desistiu de viver sobre os corpos de
moribundos, pois já não lhe suporta mais ver a morte.
Hoje ela faz 10 anos,
seu corpo é magro, cadávérico, completamente desnutrido. Essa criança não
brinca mais, não tem mais fé. Sua alma agora é dor e chagas. Seus olhos opacos
não enxergam o mundo. Encolheu em si. Murmura alucinações para seu coração que
sofregamente palpita, devagar, cansado. Tem o tempo ao seu lado, mas não o
espaço.
Nessa noite em
comemoração aos seus 10 anos ela prometeu para si uma festa! Uma passagem que
finalizará todo seu passado, esse o construtor de seu corpo e alma!